08 março 2015

And the waltz go on

... by Sir Anthony Hopkins, and performed by Andre Rieu and his orchestra (Vienna, 2011). Beautiful, frantic, amazing, emotive... and humble!

28 fevereiro 2015

Lullaby (2014)

A história de uma família. De um filho que partiu para não ver o pai a lutar contra um cancro. Um cancro que deveria vencer em 6 meses, mas que foi combatido durante 12 anos, até à exaustão. É então que este pai decide chamar os filhos e dizer-lhes que quer morrer, que pediu o suicídio assistido.

Entre negações, culpas, confrontos, há uma família que se reconstrói, palavras que são finalmente ditas, pazes que são refeitas. Há um constatar de deriva que apenas foi originada pela fuga constante, pelo não querer aceitar aquilo que está presente, que é certo, inevitável.

Lullaby é uma aprendizagem. A aprendizagem da vida por aqueles que tentam fugir da mesma, para aqueles que pensam nunca estar prontos para enfrentar nada. E não estamos, mas às vezes é preciso respirar de cara com os problemas e aceitá-los, só assim o balão perde o ar e volta a entrar oxigénio.



04 fevereiro 2015

Outlander (TV, 2014-...)

Descobrir Outlander é como redescobrir a magia do imaginário em conteúdos televisivos. Uma lenda, uma história mágica, uma viagem no tempo. Um sonho do qual se quer acordar mas que acaba por se tornar a vida. Uma estrangeira, uma época passada de sangue, de guerras, de egos. Uma Escócia católica, machista... uma nova família no século XVIII. Sem confiar em ninguém, entendendo pouco ou nada da língua, tentando regressar ao marido que a perdeu no século XX, Claire é protegida pelo laird do clã MacKenzie graças aos seus conhecimentos de curandeira (enfermeira de guerra). Presa entre os irmãos Colum e Dougall que tanto precisam dela como a consideram uma espia inglesa, Claire encontra em Jamie, o sobrinho com a cabeça a prémio, o único amigo e confidente. Rapidamente, o discrição de Claire e a sua competência a ajudam a conquistar os corações dos serviçais e dos seus anfitriões, mas Claire quer desesperadamente regressar ao século XX e, nesse empreendimento, várias são as aventuras e os dissabores.

02 fevereiro 2015

Os Maias, cenas da vida romântica (2014)

Inspirado pelo romance de Eça de Queiroz, o filme de João Botelho conta-nos a vida "dramática" de Carlos Eduardo Maia, ou melhor tudo começa com o avô Afonso Maia, passando pela tragédia do pai, até à tragédia do filho e da filha.

Habitualmente não "perdemos tempo" com filmes portugueses. Ou são teatrais, ou são longos e aborrecidos, ou a história é pobre, ou, ou, ou...


Pois bem, os Maias têm alguns argumentos: a obra homónima que os inspira, a inovação cenográfica e claro a mordaz crítica social. Contudo, tem más interpretações, é demasiado longo, a sonoplastia desastrosa (há falas praticamente imperceptíveis), banda sonora quase inexistente. Enfim, "um filme português".

O que tem de extraordinário: os quadros a óleo de João Queiroz. Sim, em vez de cenários reais ou construídos, a produção optou por cenários pintados, semelhantes aos do teatro. Arrojado, distinto... pessoalmente gostei, mas devo ser das poucas, atendendo aos comentários disponíveis pela rede.

26 janeiro 2015

The Fault in Our Stars (2014)

Não li o livro pelo que não tenho termo de comparação. Habitualmente os filmes ficam aquém da composição literária, não obstante o ethos e o pathos poderem ser comuns. No cinema, a imagem toma conta dos sentidos; na leitura sobressaem os sentimentos, a possível imaginação.

Adiei ver o filme, talvez a esperança de poder ler primeiro o livro, mas isso não aconteceu.

A doença, o cancro, a morte, são sempre temas dolorosos. A sua representação tende para o apelo à pena como o autor fictício, revoltado pela perda, Peter van Houtten (quem melhor que William Dafoe para o interpretar?) faz questão de sublinhar. Não que o paciente use conscientemente a doença para inspirar sentimentos de pena. A experiência tem-me mostrado que quem está verdadeiramente doente e tem consciência da proximidade da morte, luta pela vida, não baixa os braços ou coloca nos outros o ónus da dor. Isso são os outros... os que querem estar doentes para ter atenção, que se sentem sós.

Neste filme, nenhum dos doentes quer pena, muito pelo contrário. Querem, por um lado, ser tratados como seres humanos "normais" sem o tema habitual da doença que lhes lembra a dor e o fim; por outro lado, querem minimizar o sofrimento que causam a quem amam e que, provavelmente, em breve, terão de viver com a perda.

A tristeza de Hazel, a sua busca por respostas, não são sobre a doença e sobre o porquê de estarem doentes, mas o que acontece depois, a quem causaram "trabalho", tristeza... quem os perde. Hazel só quer "minimizar" os efeitos laterais, por isso tenta manter Gus à distância, por isso procura van Houtten.

Hazel é realista, introvertida, isolada... porque não quer magoar quem a ama. Hazel aceita a inevitabilidade e a dor... Porque a dor tem de ser sentida. Só não aceita que os outros a vivam por ela, através dela... a usem como desculpa.

The Fault in our Stars é um retrato de tantas vítimas, de tantos sobreviventes. Um retrato que me confirmou a necessidade de aceitarmos a morte como parte da vida. Nuns casos mais presente, noutros mais ausente.

30 dezembro 2014

Patrick Modiano (2014)

2014 é ano de celebração literária. Para além da habitual voracidade de livros técnicos e espirituais, tive oportunidades de descobrir autores fabulosos como Mario Vargas Llosa (A Civilização do Espectáculo) e Ryszard Kapuscinski (Os cínicos não servem para este ofício). Para confirmar alergias: António Lobo Antunes (Sôbolos rios que vão); e render-me a guilty pleasures: Luís Miguel Rocha (Bala Santa e O último Papa), Daniel Silva (O Confessor) e José Rodrigues dos Santos (A Ilha das Trevas). Claro que este último caso serviu para aumentar o apreço pelos timorenses e pela história e a aversão pelos poderes políticos.



Mas 2014 trouxe algo maior. Trouxe-me Patrick Modiano. Prémio Nobel da Literatura (2014), criador de obras primas, ou melhor, de personagens que se colam à nossa pele e nos fazem deambular por lugares que se tornam tão familiares, quantos as personagens se tornam num nós. No café da juventude perdida  ou O Horizonte pertencem ao universo "modianesco" e este é talvez o melhor que se pode dizer da obra de um autor: usar o seu nome para definir um estilo, aquele estilo que faz com que personagens e lugares, se confundam com as nossas memórias de vida. Neste momento damos por nós a dizer: "há tempos fui ao café Condé e... quando falei com a minha amigo Louki... ou quando me cruzei com o Bosmans". E de repente já não é um livro, já não é uma história: é uma parte da nossa vivência. 




29 dezembro 2014

Boyhood (2014)

Linklater é um realizador responsável por "obras-primas" que têm o dom de desviar os meus pensamentos persistentes do quotidiano, ou sobre conteúdos pouco estimulantes, ou do merecido vácuo que me ocupa a alma quando a saturação ou a falta de paciência a preenchem.
Num ano de poucas surpresas cinematográficas - não estou a brincar, muito poucos filmes me fizeram tecer comentários positivos (os negativos nem os faço pois não gosto de contribuir para o buzz do que é mau) - eis que me decido por ver o "épico gravado ao longo de 12 anos".

Boyhood acompanha a vida de Mason, entre os 5 e os 18 anos, e como diz a canção "your masquerade I don't wanna be a part of your parade everyone deserves a chance to walk with everyone else". Fruto de uma relação inconsequente, de uma mãe lutadora mas com fraco critério na escolha dos companheiros, Mason é um rapaz sossegado, calmo, com quem é muito fácil empatizar. Observador, sincero; enternecemos ao apreciar a sua relação com a mãe, com o pai e a forma como parece "completamente desligado" daquilo que antevemos como más opções.

Claro que Ethan Hawke, o actor fetiche de Linklater, dá um contributo valioso, especialmente nos diálogos existenciais com os filhos e nas reflexões sobre a vida... que vai tentando viver como os milhares de remediados que sobrevivem ou tentam viver.