06 janeiro 2013

Sofrimento (por Valerio Albisetti)

De um sofrimento nasce, por definição, a oportunidade de uma grande transformação da alma, de um apuramento, de um crescimento espiritual.
A vida é um movimento contínuo. Tudo se transforma continuamente, embora em silêncio.

Mesmo que seja preciso morrer... para se transformar, limpar, melhorar... para encontrarmos o tesouro que está em nós, para nos elevarmos espiritualmente.


O sofrimento surge para nos dizer alguma coisa.
A vida nasce da morte. Vive quem experimentou as derrotas, as perdas, os insucessos, os sofrimentos e a dor. Não existe nenhum viajante de espírito, ninguém que procure um sentido, que não tenha sofrido, que não tenha provado a dor e que a tenha transformado em opções, em crescimento interior.

O sofrimento esconde sempre um tesouro. Informações preciosas e desconhecidas sobre nós. É portador de mudança. Oferece-nos sempre a possibilidade de crescer.

Quando sofres,
quando sentes dor,
quando te sentes ferido,
quando te sentes desiludido,
quando te sentes confuso,
quando te sentes traído,
quando te sentes perseguido,
quando te sentes usado,
quando te sentes explorado,
quando te sentes manipulado,
quando te sentes zombado,
entra nas profundezas do teu coração.
Lá encontrarás a energia, a Luz para poder continuar a tua viagem fascinante, única e irrepetível nesta terra, apesar de fatigante.

Uma oração é autêntica quando entra no coração, quando vive no coração; aí, no âmago da nossa identidade, onde nos purificamos, onde encontramos a nossa vocação, onde dialogamos com Deus.


(Valerio Albisetti, Como atravessar o sofrimento e sair dele mais forte)


27 dezembro 2012

La Source des Femmes (2011)

Filme europeu realizado por Radu Mihaileanu, A fonte das mulheres retrata uma aldeia árabe assolada pela seca e onde, por tradição, as mulheres vão buscar água a uma fonte num monte, por um caminho inóspito, onde muitas grávidas acabam por perder os filhos em quedas.
Mas a tradição surgira quando os homens combatiam na guerra ou percorriam distâncias em busca de alimento. Nos dias de hoje passam o dia sentados, no café a beber chá e a conversar, enquanto as mulheres cuidam dos filhos, das casas, vão buscar água, lenha, enfim, asseguram o alimento e cuidam da família.
Tudo muda quando Leila, uma recém-casada "estrangeira", das poucas que casara por amor com Sami, o professor da aldeia, propõe às mulheres que façam greve de sexo, reivindicando que os homens devem de ir buscar a água, libertando assim as mulheres dessa dura e perigosa tarefa.
Contudo, o protesto agudiza-se e assistimos ao longo do filme a autênticas sessões de tortura a que as mulheres são sujeitas, apenas e só porque existem homens que não querem perder, por um lado, o seu ascendente sobre as mulheres, e por outro, a sua vida ociosa.

Um filme onde as diferenças de sexo e a luta pela igualdade se fazem com recurso ao amor, com uma banda sonora fenomenal e claro interpretações notáveis de atores pouco conhecidos no mundo ocidental.

 

27 novembro 2012

Scandal (2012)

Ela está de volta! Calma, estou a falar de Shonda Rhymes, alguém que em Portugal pouca gente conhece, porque não se dá cara a quem anda nos bastidores. Pois é, esta senhora é só a Criadora de Grey's Anatomy. Para os mais distraídos, uma das minhas séries favoritas ao fim de um dia de trabalho em que tudo o que me apetece é afundar-me no sofá e deixar de pensar na minha vida e bisbilhotar os dramas dos outros, daqueles a quem tudo pode acontecer, por trás do meu televisor.

Pois é, ao fim de 9 temporadas (não ainda não me fartei dos dramas de Seatle Grace) mas eis que surgem novos dramas, novos protagonistas e mais problemas para resolver. Desta vez não estão no cérebro, nem nos intestinos, nem têm a forma de carcinoma, acidente de carro ou de avião, mas de escândalos, daqueles que geram crises e que precisam de PR - Relações Públicas... pois é. A Shonda resolveu promover a imagem já de si pouco abonatória das relações públicas e mostrá-las como a profissão que resolve crises antes mesmo delas serem crises... se alguém tem dúvidas do poder de Olivia Pope, faça o favor de ver a série. Eu continuo a amar a criadora e as suas ideias... preferia que tivesse escolhido outra profissão para denegrir. Pelo menos ficou com os Estados Unidos e a sua alergia a relações extra-conjugais dos Presidentes e candidatos... como se fosse isso que realmente afectasse o desempenho dos ditos...


07 novembro 2012

Paula Fernandes

Em adolescente amava música sertaneja e MPB. A sertaneja entrava pela ecrã com o alto patrocínio das telenovelas da Globo e rapidamente se tornava banda sonora de amores inventados, nunca vividos, mas logo assumidos como tragédia greco-romana desaguada em praias brasileiras. 

Eis contudo que bem recentemente conheço Paula Fernandes - não por causa dos tops que mais tarde vim a descobrir estão cheios de Paula Fernandes - mas por causa de uma amiga de adolescência que me apresentou um tema que me viciou: Não Precisa.

A partir daí começou a senda da descoberta:


De Pássaro de Fogo (2009) destaco o tema que dá nome ao CD: Pássaro de Fogo, um auto-retato de mulher de luta, de "Minha alma viajante, coração independente", que recusa andar em Contramão, porque "Foi você quem errou o caminho, E andou na minha contramão, Eu só queria um vento norte, Pra te guiar na direção do meu coração".


A música sertaneja lembra-nos que "Que sem amor, sem ilusão, A minha vida é em vão, Isso é morrer" mas ao mesmo tempo que "Tá complicado esquecer teu sorriso, O sentimento, a paixão que ficou, Serão pra sempre os mesmos encantos" e ao mesmo tempo dá-nos força para bater com a porta e assertivamente resolver que "no momento eu desejo outro amor" (Cuidar mais de mim). De preferência um amor que nos faça ser tudo: Sou teu ego, tua alma / Sou teu céu, o teu inferno, a tua calma / Eu sou teu tudo, sou teu nada / Sou apenas a tua amada / Eu sou teu mundo, sou teu poder / Sou tua vida, sou meu eu em você (Meu eu em você). Porque Eu sem Você "Tô feito mato, desejando a chuva / Madrugada fria, esperando o sol" e torno-me Céu Vermelho, "peço o teu perdão, o teu colinho / pra que a gente possa então recomeçar".



Mas é do CD Meus Encantos (2012) aprece a minha favorita Além da Vida:   


Um sentimento vai
Além da vida pra dizer
Que nunca é tarde pra tentar
Um grande amor então viver

Já fui ferido
Também chorei, posso entender
Mas esse amor além da vida
Vamos viver
Eu já fui teu sol, fui teu luar
Dei tudo de mim pra te convencer
De que eu sou o amor e parte de mim
Pertence a você
Mil vidas de amor pra continuar
Tentar ser feliz sem fazer sofrer
De volta ao que eu sou, eu renasci
Pra te merecer


27 outubro 2012

Passeio por El Prado


Em mais um contributo para diminuir as zonas negras europeias no meu mapa, perdi-me por Madrid. Não bem perdida, o que me levou à capital espanhola era bem racional e foi bem planeado, ao contrário da visita, para a qual nem mapa tinha e nem sequer me passou pela cabeça que o fuso horário e a chuva me poderiam atrapalhar os planos habituais de deambulação pela cidade.

De vésperas decidi que teria de visitar alguns ex libris dos que aparecem nos Top 10 de Madrid e claro o Museu do Prado encabeçava essa lista. Existem guias e recomendações e críticas e... - sei lá mais o quê - que definem quais as obras must see, mas nunca fui muito de establishment e em termos de pintura a Mona Lisa e tudo o que sejam retratos passam-me totalmente ao lado (portanto desculpa lá oh Caballero "obra-emprestada" pelo Metropolitan Museum of Art de New York do Velàzquez mas nem te veria se não me tivessem oferecido um flyer).

Mas do Velàzquez amo a Coroação da Virgem (1635) e o Cristo Cruxificado (1632).

Coroação da Virgem, por Velazquez

Cristo Crucificado, por Velazquez


E já agora do grande El Greco inspirador dos surrealistas destaco: Trindade; BaptismoCoroação; Sudário; Pentecostes; e claro...

Cristo a carregar a Cruz (1602), por El Greco



Curiosamente, algumas maravilhas que me captaram o olhar são mesmo recomendadas, tais como:

Anunciação (séc. xv, versão do Museu do Prado), de Fra Angelico 

- Postal de Natal em algumas ocasiões -


The Dead Christ Supported by an Angel (1475-78), por Antonello de Messina

The Descent from the Cross (1435)Rogier van der Weyden

Table of the Mortal Sins (séc. xv) El Bosco



Verdadeiramente impressionada fiquei com as obras (para mim desconhecidas, apesar de em alguns casos, já ter ouvido falar nos seus autores):

La Caridad Romana (1851, mármore), Antonio Sola
Na escultura, Sola representa uma filha a amamentar o pai prisioneiro para que não morra de inanição. Um exemplo de caridade, mas também símbolo de retribuição a quem dá a vida e que no fim de um ciclo precisa que a mesma lhe seja devolvida.

Triumph of death (1562), by Pieter Brueghel the Elder

Talvez a obra mais conhecida deste pintor. Não sei se pelo momento que vivemos, só agora reparei na mesma e a sensação foi avassaladora. E não me chocam apenas os corpos caídos, os animais famélicos... chocam-me sim os esqueletos vivos que tocam instrumentos musicais, que fazem a festa na ilusão de estarem vivos, quando não são mais do que cadáveres adiados.

Three Ages of Man and Death (1510), por Hans Baldung Grien

Continuando na morte... um trabalho a que é impossível ficar indiferente.

Dedicada a Goya estava a exposição das suas Pinturas Negras (devido ao pigmento predominante, mas também aos temas retratados). Da mesma, faziam parte Colossus, Saturno a Devorar o filho (1819-1823) e Witches Sabbath (The Great He-Goat)  (1819-1823).

Colossus, por Goya Y Lucientes


Conheci igualmente novos nomes com trabalhos notáveis, como o retábulo de Mabuse, a Última Ceia e as obras dedicadas ao martírio de Santo Estêvão (primeiro mártir cristão) de Juan de Juanes, a Anunciação de Juan Correa de Vivar; e a Santíssima Trindade de José de Ribera.

Christ between the Virgin Mary and Saint John the Baptist (1510-15), por Jan Mabuse 


Última Ceia (1562), por Juan de Juanes

The Annunciation (1559), por Juan Correa de Vivar


The Holy Trinity (1635), de José de Ribera

Destaco ainda: São Sebastião de Guido Reni; Santa Veronica de Bernardo Strozzi; o São Francisco confortado por um anjo de Francisco Ribalta; e o estilo de Giambattista Tiepolo.




Claro que a temática religiosa é dominante na arte presente no Museu do Prado, ou não fosse a colecção oriunda de palácios fruto das ofertas e aquisições de reis e nobres coleccionadores. O esbanjamento de outrora permite encher museus e galerias; o de hoje em dia enche garagens ou desaparece no espectro, tal a futilidade dos consumos.

Curiosidade (isto é uma pintura de quadro tradicional e o tampo de uma mesa de apoio) as colagens pós-modernas devem ter começado com este senhor Charles-Joseph Flipart (1721-1797).

Mesa revuelta con pinturas, zanfonía, libros y otros objetos de trampantojo (1779), por Charles-Joseph Flipart

13 outubro 2012

És tu o meu chão



Largaram-me a mil metros do chão
Reparo o sol que se afasta no ar
Rasgo caminho onde o vento dormia
Adormeço sentidos no meu furacão
Enquanto sol anuncia o dia
Sinto o meu corpo, desamparado, deslizar...
Perdi-te do lado errado do coração
Eras tu o meu chão...
(...)
Não sei ao que chamam lados do coração
Mas és tu o meu chão...
És tu o meu chão...





(...)

Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...
Desviando os olhos por sentir a verdade,
Juravas a certeza da mentira,
Mas sem queimar de mais,
Sem querer extingir o que já se sabia.
Eu fugia do toque como do cheiro,
Por saber que era o fim da roupa vestida,
Que inventara no meio do escuro onde estava,
Por ver o desespero na cor que trazias.
Afinal...
Quebramos os dois afinal,
Quebramos os dois afinal,
Quebramos os dois afinal,
Quebramos os dois...
Era eu a despir-te do que era pequeno,
Tu a puxares-me para um lado mais perto,
Onde se contam histórias que nos atam,
Ao silêncio dos lábios que nos mata.
Eras tu a ficar por não saberes partir,
E eu a rezar para que desaparecesses,
Era eu a rezar para que ficasses,
Tu a ficares enquanto saías.
Não nos tocamos enquanto saías,
Não nos tocamos enquanto saímos,
Não nos tocamos e vamos fugindo,
Porque quebramos como crianças.
Afinal...
Quebramos os dois afinal,
Quebramos os dois afinal,
Quebramos os dois...
É quase pecado que se deixa.
Quase pecado que se ignora.



Viverei mil e um anos, e mais de mil vidas e não compreenderei os seres humanos. 
Serei eu a viver ou a passar pela vida, sem nunca saber o que sou, o que somos, o que queremos ser e o que conseguimos ser. serei apenas um perdido por entre certezas de verdades, e medos de mentiras que se evitam nos olhares e nos pensamentos, que são no imaginário e na vontade, nas orações dos dias que vão passando e em que vamos passando ao largo, com o pensamento um no outro, mas sozinhos, encerrados na concha do egoísmo, do para mim... sem ti... sem nos tocarmos... fugindo

08 agosto 2012

The Best Exotic Marigold Hotel (2011)

Talvez o filme que mais bem disposta me deixou nos últimos tempos. Não só porque a minha escolha tem recaído em filmes dramáticos (In the Land of Blood and Honey) ou de efeitos especiais (The Wrath of the Titans II), mas também pela falta de originalidade que grassa na 7ª arte.


The Best Exotic Marigold Hotel conta uma história sobre envelhecimento e sobre o começar de novo, num país desconhecido: a Índia. Realizado por John Madden, com brilhantes interpretações de Judi Dench, Maggie Smith e Dev Patel.

O filme conta a história de um grupo de reformados: o casal Ainslie, na falência devido à ajuda prestada à filha, enquanto Jean mantém uma atitude negativa e cria mau ambiente social, Douglas descobre uma nova vida num novo país explorando a novidade; Norman um solitário em busca de uma última aventura amorosa, de uma última subida à montanha; Graham um juiz homossexual preso a um amor de adolescência vivido na Índia e que procura reencontrar; Muriel housekeeper compulsivamente reformada e que parte para a Índia para ser operada ao fémur e que apesar das múltiplas resistências iniciais acaba por ser a heroína que salva o hotel; Madge uma viúva alegre que procura um último marido e Evelyn viúva em busca de um recomeço de vida visto sentir-se completamente enganada com a vida levada por um marido que descobre não ter conhecido.

Todos embarcam para a Índia para se alojarem no Best Exotic Marigold Hotel sob a promessa de serem tratados como autênticos marajas. À chegada percebem que o hotel não é nenhum palácio e Sonny, o seu anfitrião, não passa de um jovem sonhador lunático.

Um filme que retrata o envelhecimento e as formas de o encarar. Uma oportunidade ou uma condenação... para os protagonistas - para alguns - uma nova vida, no desconhecido, naquele lugar onde não se carrega bagagem.

Um filme humano, pintado nas cores de Jaipur, com paisagens magníficas e gente simples. Gentes que acreditam que no fim tudo fica bem; se não está bem é porque ainda não é o fim.