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04 fevereiro 2015

Outlander (TV, 2014-...)

Descobrir Outlander é como redescobrir a magia do imaginário em conteúdos televisivos. Uma lenda, uma história mágica, uma viagem no tempo. Um sonho do qual se quer acordar mas que acaba por se tornar a vida. Uma estrangeira, uma época passada de sangue, de guerras, de egos. Uma Escócia católica, machista... uma nova família no século XVIII. Sem confiar em ninguém, entendendo pouco ou nada da língua, tentando regressar ao marido que a perdeu no século XX, Claire é protegida pelo laird do clã MacKenzie graças aos seus conhecimentos de curandeira (enfermeira de guerra). Presa entre os irmãos Colum e Dougall que tanto precisam dela como a consideram uma espia inglesa, Claire encontra em Jamie, o sobrinho com a cabeça a prémio, o único amigo e confidente. Rapidamente, o discrição de Claire e a sua competência a ajudam a conquistar os corações dos serviçais e dos seus anfitriões, mas Claire quer desesperadamente regressar ao século XX e, nesse empreendimento, várias são as aventuras e os dissabores.

26 janeiro 2015

The Fault in Our Stars (2014)

Não li o livro pelo que não tenho termo de comparação. Habitualmente os filmes ficam aquém da composição literária, não obstante o ethos e o pathos poderem ser comuns. No cinema, a imagem toma conta dos sentidos; na leitura sobressaem os sentimentos, a possível imaginação.

Adiei ver o filme, talvez a esperança de poder ler primeiro o livro, mas isso não aconteceu.

A doença, o cancro, a morte, são sempre temas dolorosos. A sua representação tende para o apelo à pena como o autor fictício, revoltado pela perda, Peter van Houtten (quem melhor que William Dafoe para o interpretar?) faz questão de sublinhar. Não que o paciente use conscientemente a doença para inspirar sentimentos de pena. A experiência tem-me mostrado que quem está verdadeiramente doente e tem consciência da proximidade da morte, luta pela vida, não baixa os braços ou coloca nos outros o ónus da dor. Isso são os outros... os que querem estar doentes para ter atenção, que se sentem sós.

Neste filme, nenhum dos doentes quer pena, muito pelo contrário. Querem, por um lado, ser tratados como seres humanos "normais" sem o tema habitual da doença que lhes lembra a dor e o fim; por outro lado, querem minimizar o sofrimento que causam a quem amam e que, provavelmente, em breve, terão de viver com a perda.

A tristeza de Hazel, a sua busca por respostas, não são sobre a doença e sobre o porquê de estarem doentes, mas o que acontece depois, a quem causaram "trabalho", tristeza... quem os perde. Hazel só quer "minimizar" os efeitos laterais, por isso tenta manter Gus à distância, por isso procura van Houtten.

Hazel é realista, introvertida, isolada... porque não quer magoar quem a ama. Hazel aceita a inevitabilidade e a dor... Porque a dor tem de ser sentida. Só não aceita que os outros a vivam por ela, através dela... a usem como desculpa.

The Fault in our Stars é um retrato de tantas vítimas, de tantos sobreviventes. Um retrato que me confirmou a necessidade de aceitarmos a morte como parte da vida. Nuns casos mais presente, noutros mais ausente.

30 dezembro 2014

Patrick Modiano (2014)

2014 é ano de celebração literária. Para além da habitual voracidade de livros técnicos e espirituais, tive oportunidades de descobrir autores fabulosos como Mario Vargas Llosa (A Civilização do Espectáculo) e Ryszard Kapuscinski (Os cínicos não servem para este ofício). Para confirmar alergias: António Lobo Antunes (Sôbolos rios que vão); e render-me a guilty pleasures: Luís Miguel Rocha (Bala Santa e O último Papa), Daniel Silva (O Confessor) e José Rodrigues dos Santos (A Ilha das Trevas). Claro que este último caso serviu para aumentar o apreço pelos timorenses e pela história e a aversão pelos poderes políticos.



Mas 2014 trouxe algo maior. Trouxe-me Patrick Modiano. Prémio Nobel da Literatura (2014), criador de obras primas, ou melhor, de personagens que se colam à nossa pele e nos fazem deambular por lugares que se tornam tão familiares, quantos as personagens se tornam num nós. No café da juventude perdida  ou O Horizonte pertencem ao universo "modianesco" e este é talvez o melhor que se pode dizer da obra de um autor: usar o seu nome para definir um estilo, aquele estilo que faz com que personagens e lugares, se confundam com as nossas memórias de vida. Neste momento damos por nós a dizer: "há tempos fui ao café Condé e... quando falei com a minha amigo Louki... ou quando me cruzei com o Bosmans". E de repente já não é um livro, já não é uma história: é uma parte da nossa vivência. 




21 setembro 2014

Detachment (2011)

Detachment conta a história de um professor substituto nos EUA. A sua condição leva-o ao ensino de literatura americana em várias escolas sem criar laços com alunos, colegas, pais ou instituições. A "profissão ideal" para alguém estragado pela vida, para quem tem dificuldade de relacionamento com os outros, para quem se tenta esconder, ou ultrapassar problemas pessoais sem para os mesmos arrastar terceiros.

No entanto, Henry Barthes não é indiferente ao mundo e vê-se, desta vez, enredado pelas histórias de vida de quem o rodeia e procura fazer a diferença (We have such a responsibility to guide our young so that they don't end up falling apart, falling by the wayside, becoming insignificant). Acreditando que escrevendo as coisas "podem melhorar" vai-nos relatando a sua esperança, desânimo, impotência... e baixa auto-estima.

(Whatever is on my mind, I say it as I feel it, I'm truthful to myself; I'm young and I'm old, I've been bought and I've been sold, so many times. I am hard-faced, I am gone. I am just like you)

A caridade dá que fazer é o título de um livro que constantemente me veio à mente enquanto via esta filme. Juntamente com conversas edificantes que tenho mantido com quem quer fazer a diferença mas se sente vazio e desamparado, porque sós somos muito pouco. Além disso, todos temos uma história, uma bagagem mais ou menos pesada, como pode alguém à deriva indicar o caminho a quem nem sabe como navegar?

De sublinhar a brilhante interpretação de Adrian Brody e a banda sonora de Ray LaMontagne.







Henry Barthes: How are you to imagine anything if the images are always provided for you?

Henry Barthes: Doublethink. To deliberately believe in lies, while knowing they're false.

Henry Barthes: Examples of this in everyday life: "Oh, I need to be pretty to be happy. I need surgery to be pretty. I need to be thin, famous, fashionable." Our young men today are being told that women are whores, bitches, things to be screwed, beaten, shit on, and shamed. This is a marketing holocaust. Twenty-fours hours a day for the rest of our lives, the powers that be are hard at work dumbing us to death.

Henry Barthes: So to defend ourselves, and fight against assimilating this dullness into our thought processes, we must learn to read. To stimulate our own imagination, to cultivate our own consciousness, our own belief systems. We all need skills to defend, to preserve, our own minds.


12 julho 2014

O Deus das Pequenas Coisas



Sinopse

O Deus das Pequenas Coisas é a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal. Uma história feita de muitas histórias. A histórias dos gémeos Estha e Rahel, nascidos em 1962, por entre notícias de uma guerra perdida. A de sua mãe Ammu, que ama de noite o homem que os filhos amam de dia, e de Velutha, o intocável deus das pequenas coisas. A da avó Mammachi, a matriarca cujo corpo guarda cicatrizes da violência de Pappachi. A do tio Chacko, que anseia pela visita da ex-mulher inglesa, Margaret, e da filha de ambos, Sophie Mol. A da sua tia-avó mais nova, Baby Kochamma, resignada a adiar para a eternidade o seu amor terreno pelo Padre Mulligan.
Estas são as pequenas histórias de uma família que vive numa época conturbada e de um país cuja essência parece eterna. Onde só as pequenas coisas são ditas e as grandes coisas permanecem por dizer.
"O Deus das Pequenos Coisas" é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salmon Rushdie e García Márquez.




Voltei a pegar no livro de Arundhati Roy, o seu primeiro e único romance até ao momento, que em 1997 lhe valeu o Booker Prize. Lembrava-me que tinha adorado lê-lo, mas não me recordava o porquê... talvez a história, talvez as figuras de estilo ou o léxico.

O primeiro capítulo não me esclareceu a dúvida, mas enquanto a história de Estha e Rahel se ía revelando e Roy nos apresenta pistas para o que ainda vai acontecer, dei por mim embrenhada na Índia dos anos 60, uma Índia que não conheço - não conheço mesmo nenhuma - e que me assusta pela sua descrição, pelos seus humores e hábitos.

Dei por mim a sentir que eventualmente conhecia esta Índia, ou pelo menos, estas personagens indianas, especialmente as infantis, ingénuas e autênticas, retratadas por Roy como uma pureza imunda, manchada pelas tradições sociais que acabaram por testemunhar sem no entanto compreender a crueldade ou as motivações adultas... só sabiam que a mãe que amavam os culpava e que gostava "menos deles".

Os acidentes quotidianos como os dramas de quem os vive e tende a exagerar, por não conhecer outro mundo ou outras reacções para além da partida, para além da crueza das pequenas coisas, pois são as únicas de uma vida.

25 maio 2014

Afeganistão


Tenho uma curiosidade atroz por outras culturas, mas infelizmente não consigo visitá-las e embrenhar-me na sua descoberta. Por isso, muitas vezes, procuro leituras que testemunhem e me façam imaginar para além desta cultura light e easy ocidental.

A sinopse de O Livreiro de Cabul é clara: testemunho da jornalista Asne Seierstad, repórter de guerra no Médio Oriente, sobre o tempo que passou com uma família afegã.

A leitura é sôfrega, por vezes revoltante, apesar de Seierstad procurar ser imparcial. No entanto, o ritmo da escrita e a sua "secura" permitem adivinhar a fúria contida de uma mulher que assiste e não compreende, ou se compreende, não aceita.

Para mim que pouco sei sobre muçulmanos e ainda menos sobre talibans e pastunes, guardo uma leitura sem preconceitos e acessível sobre uma cultura praticamente impenetrável a olhos ocidentais.

04 maio 2014

A arte de dormir sozinha (Sophie Fontanel)


A edição portuguesa da Guerra & Paz de A arte de dormir sozinha de Sophie Fontanel apresenta na capa a interrogação: "o que leva uma mulher a desistir do sexo?" deixando o teaser para a expectativa de encontrar as respostas nas 150 páginas do livro.

Pois bem, não há resposta, ou pelo menos, Sophie Fontanel não a dá. A leitura revela uma mulher que tomou uma opção e que escreve para tentar justificar a mesma. Mostra a forma como os amigos se interrogaram, a interrogaram e de, certa forma, a julgaram, por ter decidido trilhar caminhos opostos aos preconizados pela sociedade actual, impregnada de apelos à importância do sexo na vida das pessoas e à condenação de quem não vive dando azo à luxúria e ao prazer. É difícil aos outros compreender como alguém decide algo "anormal", especialmente quando é uma pessoa "sexual" (atraente e lasciva). Mas a autora não fechou o corpo à sensualidade, apenas ao sexo, sendo o seu testemunho a evidência disso mesmo.

Fontanel explica a aversão que começou a sentir quando não havia envolvimento emocional com os seus amantes. Cansou-se de dar o corpo, na busca de um prazer momentâneo que, uma vez consumado, deixava um vazio. A inquietação do nada, do vulgar, daquilo que todos faziam, mesmo que o fizesse por sua iniciativa, levou-a a procurar a sua vontade, o significado dessa vontade. Sobre o uso do corpo, objecto vácuo de mera fruição, teria beneficiado com a leitura do onze minutos de Paulo Coelho, mas poderia não se identificar com a protagonista. Afinal, Fontanel é uma intelectual francesa, "passeia-se" entre uma elite dita erudita, amante da arte e da cultura. Portanto, "mais inteligente" / racional que uma prostituta que dá o corpo porque precisa de comer (personagem de Coelho).

Para além do retrato do questionamento, da crítica e da vacuidade das vidas dos amigos, com exemplos por vezes menos livres e menos preenchidos que os de Fontanel, a autora desfia exemplos de "compensações" de prazer. Isto é, a forma como ficou mais desperta para as "ofertas" da vida, aqueles momentos e dádivas que não vemos quando a nossa mente se entrega a momentos orgásmicos vividos ou fantasiados. Sem os sentidos inebriados, o corpo desperta para a envolvente, encontra substitutos para a ausência do estímulo corporal, descobre a verdadeira sensualidade.

No fundo, o corpo precisa de tranquilidade para se encontrar com as mais diversas fontes de prazer. "A solidão torna-nos perspicazes" (p. 83), mas também nos mostra o "desespero" de se constatar que não se ama ninguém (p. 107).

Ao fim de doze anos, Fontanel conclui que a nossa parte física são os outros que no-la dão, por isso e apesar da coragem e resiliência subjacente a uma decisão de viver no meio dos outros com uma opção "diferente", mais cedo ou mais tarde, o corpo volta a "falar" e a pedir o afecto, o carinho... sobretudo o prazer que só o envolvimento dos corpos proporciona. De vontade, de acordo com a liberdade de cada um, e novamente Fontanel se revela "diferente"... com mais de 50 anos de idade renuncia ao compromisso, ao casamento, ao convencional nas relações, pois só a sua carreira, a sua "arte" a possuem!


27 janeiro 2014

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (Clarice Lispector)



Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.


(Edição da Relógio D'Água, 1999, p. 48)


Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.


(Edição da Relógio D'Água, 1999, p. 99)


Baixa e longínqua
É a voz que ouço. De onde vem,
Fraca e vaga?
Aprisiona-me nas palavras,
Custa-me entender
As coisas pelas quais pergunta
Não sei e não sei
Como responder-lhe-ei.

Só o vento sabe,
Só o sol sábio conhece.
Pássaros pensativos,
O amor é belo,
Me insinuam algo.
E o mais
Só o vento sabe,
Só o sol conhece.

Por que, ao longe, erguem-se as rochas,
Por que vem o amor?
As pessoas são indiferentes,
Por que tudo lhes sai bem?
Por que eu não posso mudar o mundo?
Por que não sei beijar?
Não sei e não sei
Talvez um dia compreenda.

Só o vento sabe,
Só o sol sábio conhece.
Pássaros pensativos,
O amor é belo,
Me insinuam algo.
E o mais,
Só o vento sabe,
Só o sol conhece.


A letra da música Zdenek Rytir. E a música de Karel Svoboda.

(Edição da Relógio D'Água, 1999, p. 104)

21 setembro 2013

O homem que queria ser feliz (Laurent Gounelle)

Laurent Gounelle é um homem das Ciências Humanas que após uns anos pela academia se virou para o desenvolvimento pessoal percorrendo o mundo em busca de pessoas excepcionais e de histórias para contar.

A primeira, sobre os seus encontros com um sábio no Bali, pode ser encontrada em livrarias um pouco por todo o mundo afinal: onde está um homem que não quer ser feliz?



Ficam alguns excertos:

Não é dizendo às pessoas o que elas querem ouvir que as ajudamos a evoluir (p. 38)

Os seres humanos são muito apegados a tudo aquilo em que acreditam. Não procuram a verdade, querem apenas uma certa forma de equilíbrio, e conseguem construir um mundo mais ou menos coerente com base nas suas crenças e convicções. Isso tranquiliza-os, e é por isso que de forma inconsciente lhes têm tanto apego. (...) Aquilo em que acreditamos torna-se a nossa realidade. (p. 53)

Se estamos convencidos que o mundo é perigoso, vamos realmente dirigir a nossa atenção para todos os perigos reais ou potenciais, e teremos cada vez mais a impressão de viver num mundo perigoso. (p. 58)

Não é a ouvir outra pessoa falar que evoluímos. É a agir e a viver experiências. (p. 65)

Aquele que se deixar desencorajar pela primeira dificuldade que encontrar não irá longe na vida. (p. 65)

Se eu não for capaz de o perceber e ficar ofendido o problema é meu, e não seu. (...) O que pode ofender não é a mensagem, mas a maneira de a transmitir. Se formos educados, por exemplo, agradecendo ao outro a sua boa intenção, não o ofendemos. Se o ofendermos, é porque ele é muito susceptível, e nesse caso, de certa maneira, o problema é dele e não nosso.
(...)
Quando não diz a verdade às pessoas, dá-lhes a oportunidade de contornarem os seus argumentos, o que o leva a mentir mais uma vez. (p. 100)

Grande parte dos nossos medos são criações do nosso espírito. (...) é fundamental que sejamos capazes de nos voltarmos para os outros e de lhes pedirmos o que precisarmos. Todas as pessoas realizadas têm essa competência. (p. 107)

Há circunstâncias em que temos de fazer escolhas, e, portanto, de renunciar a coisas a que estamos apegados, para ficarmos com o que é para nós mais importante. (...) Se não renunciar a nada, abstém-se de escolher. E quando nos abstemos de escolher, abstemo-nos de viver a vida que gostaríamos de viver. (...) 
Não podemos realizar os nossos sonhos a não ser que estejamos dispostos a fazer esforços e, se for necessário, alguns sacrifícios. (...)
Seguir o nosso caminho com o fim de nos realizarmos plenamente é como escalar uma montanha: enquanto não o tivermos feito, ignoramos que o esforço que isso exige acentua a satisfação que sentimos à chegada. Quanto maiores forem os esforços, mais intenso será o prazer, e mais tempo ficará gravado em nós. (pp. 110-111)

08 setembro 2013

Pode-se vencer o medo? (Valerio Albisetti)

Valerio Albisetti é, neste momento, o autor que mais quero ler. Depois de Como atravessar o sofrimento, peguei em Pode-se vencer o medo?  e a leitura foi voraz. Não são livros complexos, nem longos, mas são substanciais e fazem-me pensar, compreender e, sobretudo, ter vontade de aperfeiçoar a minha relação com os outros.

Albisetti ensina-me a compreender o que é o medo, o medo da realidade, e sobretudo porque tenho medo dessa realidade. Ensina que só olhando para a realidade com autenticidade (sem preconceitos ou certezas) podemos encontrar sinais e indicações úteis para o nosso caminho espiritual, isto porque, se estivermos ocupados com os nossos pensamentos preconcebidos, não teremos espaço para "ver". Para que isto aconteça é preciso aprender a controlar os pensamentos, são estes que "carregam" a nossa psique, a nossa alma e nos levam ao julgamento do outro, às angústias, à raiva, e... ao medo, pois o medo é o resultado das nossas "racionalizações".

Temos medo de:
.sermos nós próprios
.sermos únicos e irrepetíveis (diferentes dos outros)
.assumirmos a responsabilidade de sermos nós próprios. De conhecer e aceitar as nossas fraquezas.
.de começar a nossa própria viagem. Temos tendência a seguir os passos dos outros para "evitarmos" o peso de ter de escolher e de poder "errar", e acima de tudo para "não estarmos sozinhos"
.de sermos espirituais pois isso implica vivê-lo e dar testemunho
.de sermos amados por Deus, porque esse reconhecimento impedir-nos-ía de culpar os outros pelos nossos erros, pela nossa infelicidade, pelos nossos fracassos. "Obrigar-nos-ía a sair do nosso papel de vítimas, em que só temos pena de nós e ansiamos por compreensão e ajuda dos outros. Mas não entramos dentro de nós" (p. 22)

Nós não compreendemos o outro, porque não nos conhecemos; não o respeitamos porque não nos respeitamos. Preferimos abdicar de nós, da nossa especificidade perdendo assim a oportunidade de recebermos os nossos carismas e fazê-los frutificar.

Passei a vida inteira a procurar, a compreender, desde que era menino, mas agora sei qual é o caminho: o espiritual.
Embora ainda tropece e, por vezes, caia e perca a direcção, sei que Deus me ama desde sempre, desde que nasci, e até antes; e sei que quero fazer a minha viagem, realizar a missão para que me enviou a esta terra. Amo-O.
Quando não me esqueço da sua presença em mim nem do seu infinito amor por mim, não sei o que é o medo. (...)
Viver espiritualmente significa acreditar que o que acontece tem um sentido e nos ensina sempre algo de útil para a nossa viagem.
O espírito não tem medo.
Viver o espírito produz paz, alegria e serenidade.


Quando deixamos a nossa psique dominar-nos, prevalecem os pensamentos, pois a psique exprime-se através do corpo. Se os nossos pensamentos não forem serenos o resultado serão distúrbios psicossomáticos. Nós somos os nossos pensamentos! Os pensamentos movem as nossas atitudes e comportamentos. Uma pessoa pode agredir-nos verbal e fisicamente, mas isso acontece fora de nós, E só entrará em nós se deixarmos. O que sentimos dentro de nós pertence só a nós e a Deus. A interioridade é o único lugar onde podemos deixar entrar apenas quem quisermos, e o que quisermos.

A confiança em nós afasta o medo, mas a sociedade em que vivemos só existe porque existe o medo... Se houvesse mais Deus nas nossas vidas, haveria maior paz, maior tranquilidade...

Curei-me quando deixei de ter medo.
Quando decidi nunca mais escolher os pensamentos negativos, o medo, o terror, o sentimento de inferioridade, de infelicidade e de culpa, mas escolher os pensamentos positivos e a paz interior.
Quando decidi nunca mais me sentir um ser a que falta alguma coisa que só os outros podem dar.
Quando decidi nunca mais construir relações baseadas em necessidades mútuas.
Quando decidi abandonar a falta de confiança e nunca mais me sentir infeliz, quando os outros não satisfazem as minhas exigências.
Quando decidi nunca mais acreditar que os outros possuem coisas que eu não tenho.
Quando decidi nunca mais tentar mudar as pessoas que me rodeiam para satisfazer as minhas necessidades.
Quando, em vez disso, decidi escolher pensamentos positivos, aceitar-me a mim próprio e aos outros pelo que somos - porque nenhum de nós tem tudo o que precisa -, nunca mais pus limitações ou condições ao amor que sinto e procuro, sobretudo, a serenidade interior.



31 maio 2013

O Postal

Ficarmos adoentados - seja na alma seja no corpo - tem a vantagem de me reconduzir às leituras. Não às leituras técnicas e obrigatórias sobre comunicação, cultura e afins, mas às leituras que me relembram a importância das histórias e do imaginário na minha vida.

E é porque procuro histórias que alimentava uma grande curiosidade em relação a Philip Roth, autor norte-americano vastamente publicado e com milhões de livros vendidos por todo o mundo. Talvez não tenha pegado num best-seller, contudo peguei n' O animal moribundo que em tudo me apresentava o ser humano neste século em plena infância.

Philip Roth é cru na forma como se auto retrata e como fala do homem, dos seus sentimentos, pensamentos e relações. É obsceno - a roçar o nojento - elevando o sexo e a sua animalidade a um patamar que não me agrada, que esvazia o imaginário e me faz lamentar ter querido lê-lo.

Não obstante, com Philip Roth veio outra história, daquelas que só acontecem quando se compram livros em alfarrabistas. Por entre as folhas um postal - daqueles postal free que se encontram em locais comerciais e que normalmente anunciam eventos - singelas palavras escritas a roxo "não resisto à velha tendência de te deixar na caixa do correio um mimo pascal bjs doces" e uma minhoca (suposta assinatura). E a partir deste postal as perguntas para um enredo, as dúvidas quanto à relação da história de Repesh (protagonista) e a história da autora da minhoca (só uma mulher manda bjs doces) e do destinatário do postal.


06 janeiro 2013

Sofrimento (por Valerio Albisetti)

De um sofrimento nasce, por definição, a oportunidade de uma grande transformação da alma, de um apuramento, de um crescimento espiritual.
A vida é um movimento contínuo. Tudo se transforma continuamente, embora em silêncio.

Mesmo que seja preciso morrer... para se transformar, limpar, melhorar... para encontrarmos o tesouro que está em nós, para nos elevarmos espiritualmente.


O sofrimento surge para nos dizer alguma coisa.
A vida nasce da morte. Vive quem experimentou as derrotas, as perdas, os insucessos, os sofrimentos e a dor. Não existe nenhum viajante de espírito, ninguém que procure um sentido, que não tenha sofrido, que não tenha provado a dor e que a tenha transformado em opções, em crescimento interior.

O sofrimento esconde sempre um tesouro. Informações preciosas e desconhecidas sobre nós. É portador de mudança. Oferece-nos sempre a possibilidade de crescer.

Quando sofres,
quando sentes dor,
quando te sentes ferido,
quando te sentes desiludido,
quando te sentes confuso,
quando te sentes traído,
quando te sentes perseguido,
quando te sentes usado,
quando te sentes explorado,
quando te sentes manipulado,
quando te sentes zombado,
entra nas profundezas do teu coração.
Lá encontrarás a energia, a Luz para poder continuar a tua viagem fascinante, única e irrepetível nesta terra, apesar de fatigante.

Uma oração é autêntica quando entra no coração, quando vive no coração; aí, no âmago da nossa identidade, onde nos purificamos, onde encontramos a nossa vocação, onde dialogamos com Deus.


(Valerio Albisetti, Como atravessar o sofrimento e sair dele mais forte)


09 julho 2012

Gabriel

Quando li Cem Anos de Solidão não percebi muito do que acontecia com aquela família Buendia, mas percebi muito do que ía na imaginação daquele autor com tanto para dizer e que usava as personagens para simplesmente contar as suas histórias: várias histórias que pululavam nos seus sonhos, na sua vida em busca de um rumo ou do caminho para subir aquela montanha.
Nem sabia que aquele autor era prémio Nobel, nem o que isso significava. Estava apaixonada por aquele livro, o primeiro com quase 5 centenas de páginas que li vorazmente sobre um sentimento que me atormentava (pensava eu). Quando cheguei ao fim, não percebi o título e durante muito tempo não o percebi. Não encontrei a tal solidão, nem percebi como uma família tão extensa poderia sentir tal coisa (tão iluminado esta meu cérebro!).

Mais tarde conheci o autor: os prémios, a vida, a obra... contudo não passei das páginas iniciais de memórias das minhas tristes putas ou de uma adaptação cinematográfica de amor em tempo de cólera.
Mas nunca mais encontrei o Gabo, como é carinhosamente chamado. Talvez porque os bons livros são assim mesmo: nada os substitui. Mas eis que agora corre mundo a notícia que o Gabo parou de escrever, a memória atraiçoa-o.

Para mim encontrou a solidão nas suas histórias e agora pode dedicar-se a explicá-la em palavras curtas, em lições simples... porque não são necessárias páginas em barda para nos pôr a pensar, especialmente, quando tudo ficou demasiado efémero.



“Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco, sonharia mais.
Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz.
Andaria quando os outros páram, acordaria quando os outros dormem.
Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate…
Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.
Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre gelo e esperava que nascesse o sol.
Pintaria com um sonho de Van Gogh as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que oferecia à Lua.
Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas…
Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.
Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo Amor.
Aos Homens, provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha.
Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês Homens…
Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.
Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela 1ª vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um Homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer…”
Gabriel Garcia Marquez (Carta de Despedida aos Amigos)

20 março 2011

The Last Station





Love is life. All, everything that I understand, I understand only because I love...






Brilhantemente protagonizado por Christopher Plummer e Helen Mirren, The Last Station (2009) conta a história dos últimos anos de vida do escritor russo Lev Tolstoi, autor de Guerra e Paz e de Anna Karenina.

Num momento da vida em que procurava "desamarrar-se" da vida mundana, Lev Tolstoi procura a liberdade da sua alma pregando o manifesto onde faz a apologia do amor como elemento sintetizador de todas as religiões do mundo. Contudo, esta sua "epifania", fá-lo desentender-se com a sua mulher Sofia, companheira de 48 anos. Sofia valoriza os bens do trabalho do marido, a sua casa e a sua vida desafogada, e abomina Chertkov (Paul Giamatti) amigo que convence Tolstoi a abdicar dos seus direitos de autor a favor do povo russo.

Entre as discussões com Sofia e a pressão de Chertkov, a doença de Tolstoi agrava-se e a sua paz de espírito é uma quimera. Apenas junto do secretário Valentim Bulgakon (James McAvoy) encontra sossego, desinteresse e consideração pelo seu valor e não pelo destino das suas posses. E é Valentim que procura equilibrar o amor e a ambição, os interesses e o fanatismo, que rodeiam o escritor.



In the name of God, stop a moment, cease your work, look around you.


20 novembro 2010

Eat, Pray, Love (Elizabeth Gilbert)

Começou por ser um livro que ocupou a lista de non-fiction best sellers do New York Times Paperbacks por 182 semanas, traduzido em mais de 30 línguas e com mais de 7 milhões de cópias vendidas em todo o mundo.

Proposta de Design por Allyson Cardinale


Antes, Liz Gilbert publicara um livro de contos Pilgrims (1997), uma novela Stern Men (2000) e a biografia de Eustace Conway (The Last American Man - 2002). Apesar de aclamados, o seu sucesso só chegou depois do smash hit - Eat, Pray, Love - agora adaptado ao cinema por Ryan Murphy e protagonizado por Julia Roberts.

Eat, Pray, Love (2006) conta a história da viagem de Liz Gilbert pela Itália, Índia e Indonésia após o fim de um casamento infeliz. Por Itália descobriu o fascínio pela comida. Na Índia aninhou-se num ashram para redescobrir o seu eu interior e encontrar Deus; e, finalmente, em Bali encontrou o amor, ou melhor, deixou de fugir do mesmo.

O que lança a história de Eat, Pray, Love é uma anedota italiana que conta a história de um pobre que todos os dias se prostrava perante o santo pedindo-lhe que lhe saísse a lotaria. Certo dia, cansado de ouvir as orações, o santo desce do altar e vem junto do pobre suplicando-lhe: "por favor, compra um bilhete de lotaria".

A mensagem é mesmo essa: não devemos acomodar-nos ao que a vida nos dá, devemos arriscar e mudar a rotina; em vez de pedir, devemos fazer; em vez de fugir, devemos ter a coragem de ficar...

13 novembro 2010

Die Papstin (Papisa Joana)

No ano 2000 lia o livro editado pela Presença e ficava fascinada com a história da mulher que ousou ser homem para chegar ao topo da hierarquia mais masculina do mundo: o Papado.


A pequena Joana, viveu na Idade Média (alguns dizem século IX, outros XIII), quando as mulheres obedeciam aos maridos e existiam apenas para os servir. Mas desde pequena revelou grandes dotes de aprendizagem e vontade de conhecer. Aprendeu a ler e escrever latim e grego, aprendeu o segredo da cura usando as plantas e assumiu a identidade do irmão entretanto falecido na luta contra os saxões.

Na Convento de Furla viveu como monge; foi para Roma e tornou-se médica e conselheira papal. O apoio de alguns conselheiros do Papa e do povo haveria de a conduzir à cadeira de São Pedro onde tomou decisões para a criação de escolas para a educação das mulheres. Mas apaixonou-se e engravidou; e a sua missão terminou cedo. A tempo de permitir aos seus inimigos apagarem-na da História (ou talvez não...).

Donna Woolfolk Cross escreveu,  Sonke Wortmann realizou e Johanna Wokalek interpretou. Um filme europeu, intenso, sobre uma lenda (ou não). Uma história controversa, um final comovente.

 As grandes questões que permanecem: se Joana era um instrumento de Deus, devota e cheia de fé, convicta da sua missão, como cede tão facilmente aos encantos de Gerold? Será o celibato realmente indispensável aos "obreiros" do Senhor?

Afinal, porque não podem as mulheres ser parte da História e da hierarquia da Igreja, se a fé e a missão são dons de Deus?

04 agosto 2010

A Rainha sem Nome



Contracapa: «Filha de reis, mãe de reis e um nome esquecido na Ibéria dos Godos e dos povos Celtas.» Poderíamos definir assim a protagonista deste romance, uma personagem de origem desconhecida, acolhida pelos albiões, conhecedora dos segredos das artes dos druidas e que participa nos conflitos territoriais da sua época. No entanto, em breve vai descobrir a sua ascendência real e vai ser exigida pelo seu verdadeiro povo: os godos. Albión sofre a opressão de Lubbo, um tirano sanguinário que restaurou o sacrifício humano para adorar um deus arcaico que muitos desejam enterrar. A vida aprazível no vale vê-se mergulhada na luta pela sublevação, e a protegida do druida Enol é sequestrada por guerreiros de origem sueva. Jana, como é conhecida, é incumbida de proteger a taça do poder, que Enol lhe entrega com o objectivo de a afastar de Lubbo e da terrível ameaça no caso de ele se apoderar dela. Após a sua união com Aster, líder dos rebeldes e posteriormente príncipe dos albiões, Jana, a quem mais tarde acabarão por revelar a sua verdadeira identidade de princesa perdida, viaja, contra a sua vontade, rumo ao reino dos godos, para proteger os seus e cumprir um último desejo: devolver a taça sagrada aos povos do Norte. A Rainha sem Nome transporta o leitor através de uma viagem cheia de aventuras pela Península Ibérica goda e a França merovíngia. Um fascinante lapso de tempo, obscuro e desconhecido, que é oferecido ao leitor com apurada mestria literária e rigor histórico".


Para mim uma leitura compulsiva, ou não amasse a Península Ibérica e tudo o que respeita aos lígures e aos celtas. Daquelas histórias que me transportam para outros mundos de onde não consigo sair, confraternizando com as personagens, vivendo os seus dramas, mas acima de tudo, sorvendo a sua espiritualidade e os seus dilemas. Sem rasgos de linguagem, ou poesia em prosa, Gudín lê-se pelo retrato histórico.

Uma constelação de lutas pelo poder e pela riqueza territorial entre cantábricos, suevos, francos e visigodos que ocuparam a zona da Península Ibérica e da França, nos tempos bárbaros. Ainda o retrato das diferenças religiosas e da mulher enquanto objecto de troca, e da busca pela posse de um cálice (Graal dos celtas).


Nota menos para a edição: muitos erros de português e gramaticais na tradução da Difel!

20 abril 2010

Jesusalém




"Jesusalém” de Mia Couto é classificado pela Editora Caminho como “a mais madura e mais conseguida obra de um escritor no auge das suas capacidades criativas”.

O romance começa assim: “Profundamente abalado pela morte da mulher, Dordalma, aquela que era ‘um bocadinho mulata’, Silvestre Vitalício afasta-se da cidade e do mundo. Com os dois filhos Mwanito e Ntumzi, mais o criado ex-militar Zacarias Kalash, faz-se transportar pelo cunhado Aproximado para o lugar mais remoto e inalcançável. Aí, numa velha coutada de caça em ruínas, funda o seu refúgio, a que dá o nome de Jesusalém, porque a vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado”.


O narrador é Mwanito, o filho mais novo de Silvestre, que numa voz ingénua e ignorante nos fala do mundo que vive nele, nas faltas e particularidades de uma vida feita de silêncios, insinuações e naturezas.

Mwanito vai-nos contando como é "ser como um engano, como se a existência fosse uma indiscrição" naquele universo criado e mantido pela loucura de um homem que saiu do seu lugar para nunca mais a si regressar, arrastando consigo os filhos, o cunhado e um serviçal. É este homem enlouquecido pela perda, que preferiu fugir a fazer luto que personifica a afirmação: " o homem é bicho morredouro, que adora a vida mas gosta ainda mais de não deixar viver".

O prazer na leitura deste trabalho advém das numerosas pérolas versificadas, escritas sem pretensões, lidas em surpresa e reflectidas com um inabalável sorriso:

  • o sonho é uma conversa com os mortos, uma viagem ao país das almas.
  • as casas são habitadas por sombras e governadas por lembranças.
  • a cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos.
  • os mortos não morrem quando deixam de viver, mas quando os votamos ao esquecimento.
  • se queres conhecer um homem, espreita-lhe as cicatrizes.

Jesusalém é terra de dor, de lonjura, de fuga de um mundo que há muito deixou de ter respostas, palavras ou sequer sorrisos.

05 abril 2010

A Cura de Schopenhauer por Irvin D. Yalom


Pertencente ao grupo dos escritores de «romances de ideias» Irvin D. Yalom não cessa de me surpreender. Depois de Quando Nietzsche Chorou impunha-se a repetição da dose: filosofia, romance e psiquiatria. Psicoterapeuta e professor de psiquiatria, o americano de origens russas reúne, sob o pretexto literário, uma trama simples acompanhada de pensamentos de uma dos filósofos mais pessimistas sobre a condição humana.

A expressão do pessimismo começa quando ficamos a saber que Julius Hertzfeld, psicoterapeuta, tem um melanoma em estado terminal e não tem família de sangue que o acompanhe nos meses finais de vida. Resignado, decide rever todas as histórias de pacientes e tentar corrigir pelo menos uma em que tenha fracassado. É então que se reencontra com Philip Slate, o grande falhanço da sua carreira.

Mas Philip pode ser um falhanço humano, mas não o é em termos profissionais e decide fazer um trade-off com o seu antigo psicoterapeuta: a troco da sua participação em sessões de terapia grupais, Julius aceitaria ser seu supervisor e conceder-lhe um parecer que lhe permita obter uma credencial como terapeuta filosófico.

A história evolui em torno das sessões de grupo intercaladas com pensamentos e notas biográficas de Schopenhauer, verdadeiro auxiliar de Philip no seu encontro consigo próprio.

Encabeçados por pensamentos e aforismos de Schopenhauer, os capítulos desenvolvem-se de forma simples, pouco emotiva e algo previsível, onde o questionamento sobre o relacionamento eu-tu, assume o protagonismo. Quantas vezes somos pelo que pensamos que o outro quer? Quantas vezes nos anulamos devido à insegurança e à nossa incapacidade de darmos os nossos passos e não os passos que os outros nos destinam?

Schopenhauer foi uma pessoa mesquinha, irrascível e egoísta, que dedicou grande parte da sua reflexão aos impulsos interiores do homem que o tornam um ser problemático e infeliz. Ao longo da vida isolou-se dos outros por considerar que o afastavam do seu génio e propósito, turvando-lhe o entendimento. A ele devemos os estudos sobre o inconsciente de Freud e os seguintes pensamentos:

Sobre a vida:

a) Uma vida feliz é impossível. O máximo que se pode ter é uma vida heróica.

b) Se olharmos a vida nos seu pequenos detalhes, tudo parece muito ridículo.

c) Uma pessoa de raros dons intelectuais, obrigada a fazer um trabalho apenas útil, é como um jarro valioso, com as mais lindas pinturas, usado como pote de cozinha.

d) As grandes dores fazem com que as menores sejam mal sentidas e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta.

e) Na infância, o aparelho sexual ainda está inactivo, enquanto o cérebro funciona plenamente; por isso, essa é a época da inocência e da felicidade, o paraíso perdido do qual sentimos falta pelo resto da vida.

f) Não há rosas sem espinhos, mas há muitos espinhos sem rosas.

g) A vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.

h) O apego excessivo aos bens materiais, às pessoas, ou até a si mesmo é a maior causa de sofrimento.

Sobre a relação com os outros:

i) Eu jamais tive prazer na companhia dos outros, nas parvoíces que dizem, nas exigências que fazem, nos seus esforços insignificantes e efémeros. As suas vidas sem sentido são um aborrecimento e um obstáculo para a minha comunhão com os inúmeros grandes pensadores do mundo com algo importante a dizer.

j) A flor respondeu: - Tolo! Imaginas que abro as minhas pétalas para que as vejam? Eu desabrocho para mim própria porque isso me agrada, e não para agradar aos outros. A minha alegria consiste no meu ser e no meu desabrochar.

k) Feliz é o homem que consegue evitar a maioria dos seus semelhantes.

l) A primeira regra para não ser um brinquedo nas mãos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil, é manter-se reservado e distante.

m) Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas como ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em ti.

n) A única maneira de um homem se manter superior aos outros é mostrar que não depende deles.

Para Schopenhauer, viver é sofrer. E este pensamento seria eternizado por outros escritores e filósofos.

Nenhuma pena pode escrever nada de eterno, se não for mergulhada na tinta das trevas (Chapman)


24 janeiro 2010

Veronika decides to die (2009)

O que acontece quando:
deixamos de sonhar e pensar nos nossos sonhos?
perdemos o sentido do acordar?
deixamos de conversar e ouvir as pessoas que era suposto amarmos?
deixamos de sentir e mecanizamos os dias, as horas, os minutos?

Veronika decidiu morrer. Com a tentativa de suicídio denuncia amargamente a hipocrisia, a mentira, a raiva. Ao coma segue-se o internamento numa clínica psiquiátrica e a notícia fatal: não morreria pelos seus termos, mas de um aneurisma cardíaco provocado pela overdose de medicamentos que tomara para se suicidar. O ódio e a erupção inicial transformam-se numa redescoberta de si, pela curiosidade, pela vontade de fazer a diferença na vida dos outros. O desejo de morrer e as tentativas de suicídio dão então lugar a uma ânsia de viver intensamente cada momento que resta, arrastando Mari (Melissa Teo), Edward (Jonathan Tucker) e Dr. Alex Black (David Tewlis).

Mas e se o milagre de cada momento não estiver afinal condenado? E se cada nascer do sol não for apenas um momento condenado pela doença?
Será que precisamos de saber que temos os dia de vida contados, para começarmos finalmente a viver?

Baseado no romance de Paulo Coelho, com Sarah Michelle Gellar.

Tempo ainda para recordar Emma Shannon (papel de Melissa Leo em The Young Riders - 1990).