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21 junho 2009

Mito Sebástico e Cultura Portuguesa





D. Sebastião, rei de Portugal
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


Fernando Pessoa, in Mensagem


Abaixo el-rei Sebastião

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Manuel Alegre


A Lenda D'el Rei D. Sebastião

Fugiu de Alcácer Quibir
El Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com seu cavalo real

As bruxas e adivinhos
Nas altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado de Nevoeiro
Vinha D. Sebastião

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El Rei D. Sebastião

Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o povo
Afirmaram serem eles
El Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

Todos foram desmentidos
Condenados às gales
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés
Encontraram o cavalo
Farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração
de El Rei D. Sebastião

Fugiu de Alcácer Quibir
El Rei Rei D. Sebastião
E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o desejado
Pois que nunca mais voltou
El Rei D. Sebastião

José Cid


"Os Demónios de Alcácer Quibir"


Os portugueses foram tão longe
Que às vezes perderam a própria luz
Algures nos campos de Alcácer Quibir
Perdemos a luz própria e a própria luz.

O D. Sebastião foi para Alcácer-Quibir
de lança na mão a investir a investir
com o cavalo atulhado de livros de história
e guitarras de fado para cantar vitória

O D. Sebastião já tinha hipotecado
toda a nação por dez reis de mel coado
para comprar soldados lanças armaduras
para comprar o "V" das vitórias futuras

O D. Sebastião era um belo pedante
foi mandar vir para uma terra distante
pôs-se a discursar: isto aqui é só meu
vamos lá trabalhar que quem manda sou eu

Mas o mouro é que conhecia o deserto
de trás para diante e de longe e de perto
o mouro é que sabia que o deserto queima e abrasa
o mouro é que jogava em casa

E o D. Sebastião levou tantas na pinha
que ao voltar cá (aí) encontrou a vizinha
espanhola sentada na cama deitada no trono
e o país mudado de dono

E o D. Sebastião acabou na moirama
um bebé chorão sem regaço nem mama
a beber a contar tim por tim tim
a explicar a morrer sim mas devagar

E apanhou tal dose do tal nevoeiro
que a tuberculose o mandou para o galheiro
fez-se um funeral com princesas e reis
e etcetera e tal, Viva Portugal



Sérgio Godinho

[É só uma amostra. Entre documentos históricos, artes do espectáculo, ficção, poesia, iconografia e bibliografias, Vítor Amaral de Oliveira encontrou 3780 entradas sobre D. Sebastião e o sebastianismo, até 2002. Depois de olhar para elas digo-vos que faltam algumas [Agustina Bessa Luís, António Marques Bessa, Manuel de Oliveira...]. Entretanto de 2002 até hoje umas centenas mais talvez. Este é sem dúvida o mito português que mais reflexos tem no imaginário português, europeu, americano e africano. Seguindo-se-lhe a Lenda de Pedro e Inês.]

02 dezembro 2007

Eragon


Muito antes dos pais de seus avós nascerem e mesmo antes dos pais deles, os Cavaleiros do Dragão foram formados. Proteger e zelar era a sua missão e, durante milhares de anos, eles tiverem sucesso. Sua destreza nas batalhas era inigualável, pois cada um deles tinha a força de dez homens. Eles eram imortais, a não ser que atingidos por lâmina ou veneno. Os seus poderes eram usados apenas para o bem e, sob sua tutela, foram construídas grandes cidades e torres de pedra viva. As riquezas jorravam para as cidades de Alagaesia, e os homens prosperavam.
Embora nenhum inimigo pudesse destruí-los, eles não conseguiram se proteger de si mesmos. E um dia, no auge de seu poder, nasceu um garoto, Galbatorix. Aos dez anos, ele foi testado e viram que nele residia um grande poder. Os Cavaleiros o aceitaram como um dos seus e ele superou todos os demais em habilidade. Dotado de uma mente atilada e um corpo forte, ele rapidamente se destacou entre os Cavaleiros.

Os Cavaleiros tornaram-se arrogantes com seu poder e ignoraram a prudência. Durante uma viagem descuidada, Galbatorix e dois amigos foram emboscados, seus amigos foram assassinados e o seu dragão foi morto. Durante meses, ele vagou, cada dia mais insano, até que foi encontrado inconsciente por um bondoso fazendeiro e foi devolvido ao conselho dos Cavaleiros.

Quando os Cavaleiros se recusaram a lhe conceder outro dragão, Galbatorix ficou louco de raiva. Jurando se vingar dos Cavaleiros, ele começou a aperfeiçoar-se no uso dos segredos negros que havia aprendido com um Espectro. Um dia, na escuridão da noite, ele roubou um ovo de dragão e convenceu Morzan, um Cavaleiro parvo, a juntar-se a ele na prática dos segredos negros e da magia proibida. Juntos eles ganharam força e travaram uma guerra de vingança contra os Cavaleiros. Outros doze Cavaleiros, que desejavam poder e vingança, juntaram-se a Galbatorix, e eles tornaram-se os Treze Renegados.

Na última batalha sangrenta, Galbatorix [John Malkovich] conseguiu dominar a todos e proclamou-se rei de toda a Alagaesia. E, desde aquele dia, ele governa.


Quando Eragon encontra uma pedra azul polida na floresta, acredita que poderá ser uma descoberta bendita para um simples rapaz do campo: talvez sirva para comprar carne para manter a família durante o Inverno.

Mas é então que nasce uma cria de dragão e movido pela curiosidade, Eragon aproxima-se de Brom (Jeremy Irons), um velho louco, que conta histórias de Cavaleiros e Dragões. Depressa Eragon se apercebe de que está perante um legado tão antigo como o próprio Império.
De um dia para o outro, a sua vida muda radicalmente, e ele é atirado para um perigoso mundo novo de destino, de magia e de poder. Empunhando apenas uma espada legendária e levando os conselhos de Brom, antigo Cavaleiro de Dragões, Eragon e o jovem dragão terão de se aventurar por terras perigosas e enfrentar inimigos obscuros, dum Império governado por um rei cuja maldade não conhece fronteiras. Conseguirá Eragon alcançar a glória dos lendários heróis da Ordem dos Cavaleiros do Dragão? O destino do Império pode estar nas suas mãos.

[um filme de esperança no improvável. expressão adocicada e previsível do maniqueísmo e a certeza que o bem vence. nada de novo, tudo previsível, mas é tão bom quando assim é para podermos ter um serão tranquilo e cheio de sonhos cor-de-rosa]

01 novembro 2007

Visions of Atlantis





Visions of Atlantis são uma banda austríaca de Power Metal. Combinam letras existencialistas e sentimentais com o poder dos instrumentos eléctricos, com arranjos clássicos e melódicos. Batidas rápidas, guitarradas e arranjos vocais que alternam a voz doce da soprano Melissa Ferlaak , com a voz masculina de Mario Plank, resultando numa invulgar combinação.

Seguindo a tradição metaleira, as suas letras são inspiradas na mitologia, contendo um alto teor simbólico e místico.



Acabam de lançar o álbum Trinity com os fantásticos: The Poem; Seven Seas;




I know not the words to make you stay,
Yet they are engraved on your face.
This secret language, I cannot speak,
Only whisper on the breeze.

My breath, these tears, my cries, all curled up inside.
Haunting apparitions that are hidden to the dark light of day.

Our destiny shall arrive, someday Angel,
I will come to you.
Our fates shall coincide, one day, dear child,
I will come for you.

Cruel means took you far away from here,
Yet your ghost has inspired me.

I shall walk in shadows under the sun,
Awaiting your faithful call.

My breath, these tears, my cries, all caught up inside.
Celestial apparitions that are shaded in the dark light of day.

Our destiny shall arrive, someday Angel,
I will come to you.
Our fates shall coincide, one day, dear child,
I will come for you.

What once was lost is now found deep inside of your soul
Cry out for me and I will return to you.

Our destiny shall arrive, someday Angel,
I will come to you.
Our fates shall coincide, one day, dear child,
I will come for you.

I return to you...








[Farão a primeira parte dos Kamelot para a tournée 'Kamelot's Ghost Opera European Tour Part II 2008']

18 outubro 2007

despedida

[orfeu e eurídice by Rodin]


Antecipa-te a toda a despedida, como se ela te ficasse
já para trás, como o inverno que está a partir.
Pois entre invernos há um tão sem-fim inverno
que, sobre-hibernando-o, o teu coração sobreviverá.

Sê sempre morto em Eurídice - , mais cantante sobe,
Mais celebrante sobe e volta à pura relação.
Sê aqui, entre os efémeros, no reino do declínio,
Sê cristal tininte que já no tinido se quebrou.

Sê – e sabe ao mesmo tempo a condição do não-ser,
A infinda razão do teu íntimo vibrar
Pra a cumprires totalmente esta única vez.

Às reservas usadas, como às surdas e mudas,
Da natureza plena, às somas incontáveis
Soma-te a ti com júbilo e destrói o número.



Rainer Maria Rilke (1875-1926)
Sonetos a Orfeu
(tradução de Paulo Quintela)


[esta coisa de viver sempre a antecipar as despedidas conforma-nos, mas não sei até que ponto não as provoca... enfim! para já estou em tempo de despedidas: grandes despedidas]


16 setembro 2007

Hino a Ísis





Porque eu sou a primeira e a última
Eu sou a venerada e a desprezada
Eu sou a prostituta e a santa
Eu sou a esposa e a virgem
Eu sou a mãe e a filha
Eu sou os braços da minha mãe
Eu sou a estéril, e os meus filhos são numerosos
Eu sou a bem casada e a solteira
Eu sou a que dá à luz e a que jamais procriou
Eu sou a consolação das dores do parto
Eu sou a esposa e o esposo,
e foi o meu homem que me criou
Eu sou a mãe do meu pai
Sou a irmã do meu marido,
e ele é o meu filho rejeitado
Respeitem-me sempre
Porque eu sou a escandalosa e a magnífica.
[Hino a Ísis, a Grande Deusa... e simplesmente um hino à mulher, pois somos deusas de nós próprias...]

28 janeiro 2007

Mythologies - Patricia Barber


Após ganhar o Guggenheim Fellowship, Patricia Barber pode abraçar um projecto pessoal, arrojado e arriscado: dar corpo musical às personagens e aos mitos da Metamorfose de Ovídio.


As personagens são hipnóticas, o ritmo surpreendente. Da melancolia do piano a um saxofone irrequieto e violador de espaços mais que preenchidos, mas onde cada nota encontra o seu melhor local para permanecer, para enaltecer a pungência de uma voz simultaneamente sofrida e lutadora, desistente e persistente.


Um trabalho para ouvir no seu todo, mas onde distingo Pygmalion. Pela busca de um amor que permaneça enfim... poderei desejar afinal que me ames?



Pygmalion [Patricia Barber]

Cold as stone
Possessor of bone-chilling beauty
I, alone,
Wanting but not wanting to be
Scratching and clawing at this
Waiting for something to give
So give me a sign
A shiver, a sign
A look in your eye
A reason to live

Fantasy still
Captor or captive are we
Stangers until
Desire and goddess intrigue
A slanting and movement of hips
A flush, a warmth of the skin
As night falls I wait
For breath, for fate
The sweet salty taste
Pressing lips on lips

Unrequited love
Is what I know of love
Spellbound
I will stay
Imagination may be for the fools
Imagination may be cruel
To be kind
At the end
Of the day

Ivory girl
Chiseled and cooler than clay
Icy reserve
Is provocation, will you betray
Eyes that linger and hold too fast?
If you stumble, if the mask
Should crumble or fall
Warm blooded after all
The longer you stall
So shall I last